INFORME DEL TERRORISMO ABIN

TERRORISMO E CONTRATERRORISMO:
desafio do século XXI1

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ABIN ( Agencia Brasileira de informacao )

Introdução
Dois fatos, historicamente recentes, motivaram profundas
mudanças nas relações internacionais contemporâneas: a queda
do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989; e os atentados
terroristas de 11 de setembro de 2001. O 9 de novembro marcou o
descortinamento de metade do planeta. O 11 de setembro, o
erguimento de uma muralha invisível entre os povos que, acreditávamos,
estivesse destruída (FRIEDMAN, 2005).
A palavra “terrorismo” deriva do latim terror, que significa
medo ou horror. Trata-se de termo usado para designar um fenômeno
político, de longa data, cuja finalidade é aniquilar ou atemorizar
rivais mediante o uso de violência, terror e morte de pessoas
inocentes. Sem modificar sua essência, o terrorismo exibe,
na atualidade, cinco aspectos que o distinguem de épocas anteriores:
o caráter transnacional; o embasamento religioso e nacionalista;
o uso de terroristas suicidas; a alta letalidade dos ataques;
e a orientação anti-ocidental, sobretudo nos grupos
fundamentalistas2 islâmicos. Essas características nos remetem
a uma nova modalidade, que poderia ser chamada de
neoterrorismo (WITCKER, 2005).

Os atentados da Al-Qaeda, em 11 de setembro de 2001, nos
Estados Unidos da América (EUA), são o divisor de águas desse
novo ciclo. Desde então, houve ataques às cidades de Madri, na
Espanha; Bali, na Indonésia; e Londres, na Inglaterra, entre outras,
com grande número de vítimas. A metodologia, a estratégia e os
meios utilizados por terroristas são variados e imprevisíveis. Hoje,
há recursos mais poderosos e de acesso mais fácil do que os utilizados
no passado. As variantes suicidas dos terroristas e o possível
uso de armas de destruição em massa (ADM) mostram o quão vulneráveis
são os Estados a toda sorte de ataques. Faz-se urgente a
criação de mecanismos que, efetivamente, os contenham.

Considerações Gerais
Não há uma definição de terrorismo que seja aceita por
toda a comunidade internacional. Há diversas acepções, que
variam conforme o propósito das ações e o entendimento sobre
o tema. Em comum, esses conceitos apresentam o uso da violência
com motivação política, que os difere das ações unicamente
criminosas, motivadas por lucro ou por desvios de comportamento
(RAMOS JR., 2003). Essa violência se realiza no
âmbito psicológico dos indivíduos e objetiva destruir o moral de
suas vítimas. Seu efeito é o terror, isto é, um pavor incontrolável.
Freqüentemente, a expressão “terrorismo” é utilizada para
definir qualquer tipo de ação violenta, de caráter físico ou psicológico
e de natureza “radical”, “fanática” ou “extrema”. Verifica-se,
no cotidiano, que rotular um ato ou pessoa como terrorista depende,
também, de quem sofre ou pratica a ação.
Terrorismo, portanto, pode ser definido como o uso intencional
– ou ameaça de uso – de violência por um grupo político organizado
contra “populações não-combatentes”3, de forma a se alcançar
objetivos político-ideológicos.
Um ato terrorista pode ser caracterizado, identificando-se a
presença de algumas peculiaridades: a natureza indiscriminada; a
imprevisibilidade e arbitrariedade; a gravidade de suas conseqüências;
e o caráter amoral e de anomia (WOLOSZYN, 2006).
Sob outro viés, não se percebe a diferença entre as vítimas
do terrorismo, aspecto, também, importante para seu entendimento.
Podem-se distinguir três tipos:
• a vítima tática – é a vítima direta circunstancial – o morto, o
mutilado, o seqüestrado – aquele que sofre em si a violência do
atentado. Esta pode ter sido escolhida por alguma característica
ou ser apenas um alvo aleatório, indiscriminado;
• a vítima estratégica – são todos aqueles que sobrevivem
ao atentado, mas encontram-se no grupo de risco dos vitimados.
Imaginam-se alvos potenciais de um próximo ataque, tornando-se
presas do pânico; e
• a vítima política – é o Estado. A estrutura que deveria garantir
a vida dos seus cidadãos mostra-se impotente ante um inimigo
oculto e inesperado.
Considerando-se que o objetivo do terrorismo é provocar
pânico, sua vítima preferencial não é a vítima tática, aquela que
perde a vida no atentado, por uma questão inequívoca: os mortos
não temem. As vítimas buscadas pelo terrorismo são, portanto,
aquelas que sobrevivem e se sentem indefesas ante a vontade do
terrorista. O fundamento do terror, portanto, não é morte ou aniquilamento,
mas a sensação de vulnerabilidade, impotência e desamparo
ante o atentado (SAINT-PIERRE, 2005).
O combate ao terrorismo possui duas grandes vertentes: o
antiterrorismo e o contraterrorismo. O antiterrorismo compreende
medidas eminentemente defensivas, que objetivam a redução das
vulnerabilidades aos atentados. O contraterrorismo abrange medidas
ofensivas, tendo como alvo os diversos grupos identificados,
a fim de prevenir, dissuadir, ou retaliar seus atos (PINHEIRO, 2004).
Contudo, a forma como um governo reage às ameaças a suas
instituições e a sua população deve estar alinhada aos valores
que se busca proteger e preservar. Estes não podem ser sacrificados
em nome de uma “guerra santa” contra o terrorismo
(PONTES, 1999).
Arqueologia do terrorismo
O terrorismo não é um fenômeno exclusivo dos nossos dias.
Sua história é secular, com numerosas variações de ideologia,
estilo, escopo, proporções e violência. Há cerca de 2.500 anos, na
imortalizada obra “A Arte da Guerra”, Sun Tzu apontava a essência
do terrorismo: “Mate um; amedronte dez mil”.
O primeiro grupo terrorista que se tem registro data do ano
seis da era cristã. Era formado por radicais judeus que se opunham
à ocupação da Palestina pelo Império Romano. Chamavase
Sicarii e assassinava romanos e judeus colaboracionistas. O
segundo, os Nizarins, surgiu onze séculos depois, no Oriente Médio
(SOARES, 2001).
A palavra “terrorismo” surgiu para designar o período da Revolução
Francesa conhecido como “Reino do Terror” (1793-1794),
quando, sentenciadas por Robespierre, cerca de 17 mil pessoas
foram guilhotinadas. Foram os jacobinos4 os primeiros a utilizar a
violência de forma explícita. Surgia o “terrorismo de Estado”.
No século XIX, com o aperfeiçoamento das armas de fogo e
explosivos, os atentados passaram a ter maior potencial destrutivo,
e foram usados contra governos opressores. Segundo Pynchon e
Burke (apud PONTES, 1999), no século XX, a União Soviética
(URSS) tornou-se a principal provedora de organizações extremistas,
como: as Brigadas Vermelhas, na Itália; a Facção do Exército
Vermelho, na Alemanha; a Frente de Libertação de Moçambique; o
Movimento da Esquerda Revolucionária, no Chile; e o Congresso
Nacional Africano, na África do Sul.
Nas décadas de 1960 e 1970, o terrorismo contemporâneo –
nacionalista, de extrema-esquerda, de Estado e de extrema-direita
– teve seu maior desenvolvimento. Na passagem dos anos de
1980 para os de 1990, duas novas modalidades surgiram: o terrorismo
“doméstico”, tipicamente norte-americano, e o terrorismo internacional,
dos grupos fundamentalistas islâmicos. Este tem como
objetivo lutar contra a expansão e a imposição dos valores – morais,
sociais, econômicos e culturais – do mundo ocidental.
No mundo despolarizado, ressurgiram, de forma violenta, problemas
étnico-religiosos latentes, em alguns casos, há séculos.
Atos terroristas, insurgências, instabilidades regionais e guerras
civis passaram a povoar o noticiário internacional. O ódio decorrente
da assimetria social entre os povos vem sendo explorado
por grupos extremistas, como decorrência do chamado “Imperialismo
Ocidental”.
Nos dois maiores atentados terroristas do início do século
XXI – o ataque às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova
York, em 2001, e a explosão de trens em Madri, em 2003 – as
vítimas inocentes passaram a ser contadas às centenas. Só então,
a opinião pública internacional despertou para o fato de que o
terrorismo tornara-se uma ameaça real para todos.
A logística necessária à realização de ataques dessa monta
tem um preço. As organizações terroristas não possuíam o knowhow
necessário à “lavagem do dinheiro”5 destinado ao financiamento
de atentados e à infra-estrutura necessária. Trata-se de um
“sistema econômico” internacional desenvolvido após a II Guerra
Mundial, que culminou como surgimento da chamada “Nova Economia
do Terror”, que movimentou, na década de 1990, um terço
dos cerca de US$ 1,5 trilhão movimentados, anualmente, por organizações
criminosas em todo o mundo (NAPOLEONI, 2004).
O novo cenário geopolítico no Pós-Guerra Fria determinou a
redução dos fundos destinados por Estados a grupos terroristas.
Após o 11 de setembro, diversos dispositivos legais bloquearam
bens e dinheiro de patrocinadores e organizações terroristas. Assim,
estas recorreram às atividades criminosas, o que resultou em
alianças entre terrorismo e crime organizado. Esses acordos levaram
ao intercâmbio de know-how específico, como: lavagem de
dinheiro, produção de explosivos e contrabando. Hoje, esses grupos
possuem características de ambos.
Na Colômbia, as Fuerzas Armadas Revolucionarias de
Colombia (Farc), entre outros, estão envolvidas em ações terroristas,
sobretudo seqüestros e atentados à bomba. Estão, também,
comprometidas com o narcotráfico.6
No Brasil, fatos recentes apontariam a introdução do modus
operandi das Farc no País. Suas ações incluiriam o adestramento
de líderes de movimentos sociais, além de bandidos do Primeiro
Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e do Comando Vermelho
(CV), do Rio de Janeiro, para a consecução de seqüestros,
crime que garante uma receita anual de US$ 250 milhões para as
Farc (VÍDEO mostra Farc…, 2005).
A onda de violência perpetrada pelo PCC em São Paulo, em
2006, que culminou com o seqüestro de repórter da Rede Globo
de Televisão, evidencia aquela associação.
O terrorismo não está tipificado na legislação brasileira. Em
março de 2007, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da
Presidência da República encaminhou ao Ministério da Justiça o
anteprojeto da primeira lei brasileira contra o terrorismo e seu financiamento.
Em seguida, a proposta seguirá à Casa Civil, que a
encaminhará para votação no Congresso Nacional. Projetos de lei
anteriores tiveram sua tramitação bloqueada por alguns parlamentares,
que temem que essa tipificação seja, também, utilizada contra
as ações de grupos, como o MST (ZANINI, 2006).
O que esperar no século XXI
• Terrorismo suicida
O terrorismo suicida pode ser visto, em princípio, como um
gesto de paixão e fanatismo. Todavia, não se pode negar sua
racionalidade, premeditação e cálculo, tanto para destruir quanto
para aproveitar-se da mídia, sedenta de audiência. Este pode
acontecer a qualquer hora, em qualquer parte, e mina qualquer
forma eficaz de segurança preventiva. Homens-bomba7 continuarão
a ser utilizados, por serem de baixo custo e causarem grandes
danos materiais e poderoso efeito moral no inimigo mais poderoso,
que está preparado apenas para a guerra convencional
(LIMA, 2005).
Por meio da ação de Inteligência, autoridades britânicas frustraram,
em 10 ago. 2006, planos de terroristas que explodiriam
cerca de dez aviões com destino aos EUA. Os extremistas embarcariam
nas aeronaves portando substâncias líquidas, imperceptíveis
aos aparelhos de raios-x e que, combinadas, tornavam-se
explosivos.
Os sectários do terrorismo suicida justificam o uso do terror
contra todos os que são considerados inimigos do Islã, a começar
por Israel – o “Pequeno Satã” – e pelos Estados Unidos da América
(EUA) – o “Grande Satã”. Em segunda escala, vêm todos os
“infiéis, corrompidos e decadentes” do mundo ocidental ou próocidental
(PONTES, 1999). Entre estes grupos radicais, estão a
Brigada dos Mártires de Al Aqsa, o Hamas, o Jihad Islâmica, na
Palestina; extremistas como o Hizballah, no Líbano; o Gama al
Islamiyya, no Egito; e a Al Qaeda.
• Terrorismo Cibernético – “Ciberterrorismo”
A infra-estrutura de informações está progressivamente sob
ataque de “cibercriminosos”. O número, o custo e a sofisticação
dos ataques estão crescendo a taxas alarmantes. Algumas formas
infligem, também, uma crescente ameaça às pessoas e infra-estruturas
nacionais críticas (SOFAER; GOODMAN, 2001).
Os grupos terroristas têm utilizado computadores, a fim de
facilitar suas tradicionais formas de atuação. Hackers com motivações
políticas ou religiosas – os chamados “hacktivistas” – são
recrutados por extremistas. Nesse cenário, surge o terrorismo
cibernético ou “ciberterrorismo”, modalidade de perpetrar o terror,
entendida como ataques contra computadores e suas redes, informações
armazenadas, serviços essenciais ou infra-estrutura
– telecomunicações, sistema bancário, fornecimento de água e
energia elétrica, usinas nucleares, refinarias de petróleo etc. – que
impliquem pânico, mortes, acidentes, contaminação ambiental ou
perdas econômicas.
Denúncias de uso da internet para fins ativistas pelo grupo
Hamas, datam de 1996. Em 1999, sob a bandeira de defesa dos
direitos humanos, a Legion of the Underground (LoU) declarou uma
“ciberguerra” contra a China e o Iraque (VARGAS, 2001). Uma
série de ataques chamados de “Cyber Jihad” foi deflagrada, entre
1999 e 2001, por hackers palestinos, contra alvos no governo e a
infra-estrutura isralelenses (VATIS, 2001). Especialistas confirmaram
que o worm W32. Blaster contribuiu para o blecaute nos EUA
e no Canadá, em 14 de agosto de 2003. Em outubro de 2006,
hackers chineses “atacaram” o Bureau of Industry and Security
dos EUA. O objetivo seria obter os logins dos usuários da agência,
responsável pela infra-estrutura de Tecnologia da Informação (TI)
do governo estadunidense.
O Brasil abriga cinco dos dez grupos de hackers mais ativos
do mundo. O mais agressivo é o chamado “Silver Lords”8, com
1.172 invasões a sites, até agosto de 2004. Segundo estatísticas
do Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de
Segurança do Brasil (Cert.BR)9, em 2006, foram reportados 197.892
incidentes de segurança no País, contra 68.000 em 2005, o que
representa um acréscimo de 191% em um ano. Até março de 2007,
56.296 incidentes de segurança foram registrados.
Com a morosidade na atualização dos arcaicos dispositivos
legais brasileiros e amparados pelo Princípio da Legalidade constitucional,
os “cibercriminosos” permanecem atuando e se aperfeiçoando
tecnologicamente, semeando um campo fértil para atos de
ciberterrorismo contra a população e a infra-estrutura nacionais.
• Terrorismo Nuclear e Radioativo
Embora o terrorismo nuclear seja fonte de especulações e
preocupação desde a década de 1970, o fim da Guerra Fria trouxe
temores adicionais sobre a aquisição de ADM por atores não-governamentais.
O Dispositivo de Dispersão Radiológica (RDD, do Inglês), ou
“bomba suja”10, é o artefato de mais fácil confecção e de ocorrência
mais provável. O ataque a um reator nuclear, com a quebra de
sua parede de contenção, provocaria a liberação de grande quantidade
de radiação, contaminando uma área de vários quilômetros
de raio. Todavia, o roubo de um artefato nuclear ou de material
físsil, para a confecção de dispositivo nuclear, representa o risco
mais mortal (BOLSHOV; ARUTYNYAN; PAVLOVSKY, 2002).
É sabido que as centrais nucleares são alvos de terroristas:
em 3 julho de 2001, Ahmed Ressam, um argelino pertencente à Al
Qaeda, revelou à Justiça que as centrais nucleares são alvos potenciais
do grupo. Em junho de 2003, o FBI desmantelou um campo
de treinamento de ativistas, situado a 30 km da Central Nuclear
de Three Mile Island, EUA. Se, nos ataques de 11 de setembro de
2001, uma das 104 instalações nucleares dos EUA fosse atingida,
os efeitos seriam devastadores. Além da liberação dos produtos
primários de fissão nuclear para a atmosfera, haveria exposição
ambiental aos efeitos do Plutônio-239, elemento com meia-vida11
superior a 240 séculos (MARQUES, 2001).
Estima-se que haja cerca de 30 mil armas nucleares em todo
o mundo. É improvável que um Estado as forneça, intencionalmente,
a terroristas. Todavia, militares ou cientistas, por razões
ideológicas ou financeiras, podem fazê-lo. Os países da antiga
URSS são uma preocupação em particular, devido às grandes
quantidades de material nuclear que possuem, em condições duvidosas
(BOLSHOV; ARUTYUNYAN; PAVLOVSKY, 2002).
Mesmo materiais nucleares descartados – o chamado lixo
atômico – são valiosos para a fabricação de uma “bomba suja”.
Estes estão disponíveis, para grande número de aplicações, nos
setores civil e militar. As chamadas fontes radioativas são largamente
utilizadas na medicina, por exemplo, mas menos protegidas
do que materiais destinados à produção de armas. São, conseqüentemente,
mais vulneráveis a grupos terroristas. Essa disponibilidade
faz da “bomba suja” o tipo mais acessível de arma
nuclear, uma vez que esse artefato pode ser tão simples quanto
uma fonte radioterápica colocada em um explosivo convencional.
• Bioterrorismo
Os primeiros registros do uso de agentes infecciosos como
armas não são recentes e seu emprego como estratégia terrorista
data de alguns anos. Em uso recente, ataques ocorridos de 22 de
setembro a 21 de novembro de 2001 utilizando o serviço postal
estadunidense para o envio de cartas contendo esporos do Bacillus
anthracis provocaram cinco mortes e 22 outras vítimas não-fatais
(HOWITT; PANGI, 2003).
O Bacillus anthracis, o vírus da varíola, a Yersinia pestis, a
toxina do Clostridium botulinum, a Francisella tularensis, o vírus
ebola e o vírus Marburg estão classificados como Category A –
Highest Priority pelo U.S. Centers for Disease Control and
Prevention (CDC) e considera-se de uso potencial por terroristas.
Sergey V. Netesov (2002), da Academia Russa de Ciências, considera
que os membros do CDC deveriam ter elencado, nessa lista,
o vírus da hepatite A, que causa uma grave enfermidade, é facilmente
transmitido por meio oral e mais de 60% da população dos
EUA e Europa Ocidental perderam a imunidade à doença. No
Brasil, a vacinação é opcional.
A natureza imprevisível do terrorismo não permite que se
desconsidere a possibilidade de um ataque utilizando-se armas
biológicas. No Brasil, um cenário verossímil seria o da chegada de
um ou mais indivíduos infectados em um ato de bioterrorismo ainda
não-detectado, ocorrido em um aeroporto estadunidense ou
europeu. Mesmo um único indivíduo, no período de incubação,
transmitiria a doença a muitas pessoas, como ocorrido na Iugoslávia,
em 197212. Se esse indivíduo for um terrorista, infectado intencionalmente,
o número de atingidos seria multiplicado.
Considerando-se o alto risco que a manipulação de
microorganismos classificados como Category A pelo CDC traria
aos próprios terroristas e a necessidade de um laboratório de alto
nível de biossegurança para seu manejo, é provável que os terroristas
usem patógenos mais comuns, como a salmonela e o
rotavírus ou os causadores de hepatite A, difteria, cólera, influenza
– e suas variações – ou hidrofobia, de manuseio, acesso e dispersão
bem mais simples (NETESOV, 2002).
Uma variação do bioterrorismo, em que o interesse comercial
é o pano de fundo, é o “agroterrorismo”. Nessa variante, os alvos
são plantações e rebanhos diversos, onde são introduzidas
pragas e doenças, a fim de dizimá-los ou criar embargos a sua
exportação. O Brasil está exposto a quatro doenças na área vegetal:
monília do cacaueiro, besouro asiático, ácaro do arroz e
cochonilha rosada. Na área animal, são riscos para o País: a febre
aftosa, a “vaca louca”, e a “gripe aviária”.
• Armas Químicas
Assim como as armas biológicas e radioativas, as armas químicas
são imperceptíveis aos sentidos humanos e matam
indiscriminadamente. Produtos químicos estão presentes na moderna
sociedade industrial e são, portanto, mais acessíveis a terroristas
do que materiais biológicos ou físseis. Devido às barreiras
técnicas e aos riscos envolvidos na síntese de agentes de grau
militar, a obtenção de produtos utilizados nas indústrias químicas
é a forma usual. Apesar de serem centenas de vezes menos letais
do que os primeiros, esses produtos podem ser potencializados e
causar vítimas em massa, se forem liberados em um lugar fechado,
como uma estação de metrô ou uma arena de esportes indoor.
A maior parte dos agentes químicos se enquadra em cinco
amplas categorias, a saber: blister13, como o gás mostarda; nervosos,
como o gás sarin e VX; asfixiante, como gás clorídrico e
fosgênio; sangüíneos, como cianeto e ácido cianídrico; e
incapacitantes. Os agentes químicos variam, ainda, em persistência
e volatilidade. Os não-persistentes se dissipam em poucas horas
e são ameaçadores, sobretudo, se inalados. Os persistentes continuam
perigosos por até um mês se depositados sobre o solo,
vegetação ou objetos e são uma ameaça à contaminação cutânea
(TUCKER, 2002).
Devido ao extremo perigo associado ao manuseio e à disseminação
de agentes que atingem o sistema nervoso, terroristas
buscam desenvolver armas binárias14, que são mais seguras de
produzir, armazenar e transportar. Muito do que se sabe sobre o
tema se deve às ações da seita japonesa Aum Shinrikyo (Aleph),
que realizou ataques com gás sarin em Matsumoto, em 1994, e no
metrô de Tóquio, em 1995. Seu líder, Shoko Asahara, planejava
deflagrar uma guerra entre os EUA e o Japão. Em 2007, o sinal de
alerta foi ligado: seis bombas de gás cloro foram detonadas no
Iraque, até março, matando dezenas de pessoas e contaminando
centenas.
Uma nova geração de armas químicas está em desenvolvimento.
O único agente de que se tem conhecimento é o
perfluoroisobuteno (PFIB), que é uma substância extremamente
tóxica, inodora e invisível, obtida quando o polímero teflon é submetido
a calor extremo, sob condições especiais. Máscaras com
carvão ativado e outros equipamentos de proteção não são efetivos
contra o PFIB (CORDESMAN, 2002).

Antiterrorismo e Contraterrorismo
O combate ao terrorismo envolve mais atividades do que
aquelas que, em primeira análise, ostentariam esse rótulo. Inclui
uma política externa articulada com governos estrangeiros, agrupamento
de Inteligências e trabalho investigativo. Envolve, ainda,
medidas financeiras para interromper o financiamento aos terroristas
e, algumas vezes, o uso de força armada (PILLAR, 2001).
Independente das formas de combate adotadas, a integração e a
coordenação entre estas são fundamentais.
Kofi Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas, propôs
uma estratégia global de combate, a qual chama de “cinco D”, a
saber: Desencorajar os grupos descontentes a adotarem o terrorismo
como tática; Denegar aos terroristas os meios que necessitam
para perpetrar atentados; Dissuadir os Estados de apoiarem
os grupos terroristas; Desenvolver a capacidade dos Estados no
domínio da prevenção do terrorismo; Defender os direitos humanos
e o primado do Direito (ANNAN, 2006).
Considera-se que o Brasil tem-se empenhado na questão,
embora seja necessário implementar políticas efetivas de prevenção
e combate. O País participa do Comitê Interamericano Contra
o Terrorismo, aderiu a 12 dos 13 acordos internacionais patrocinados
pela ONU e cumpriu as 28 recomendações do Grupo de Ação
Financeira Internacional Contra a Lavagem de Dinheiro (Gafi).
O Country Reports on Terrorism 2005 – April 2006 do Departamento
de Estado Norte-Americano apontou a fronteira Brasil–
Colômbia, onde atuam as Farc, e a tríplice fronteira Brasil–Paraguai–
Argentina, onde há suspeitos de oferecer suporte financeiro a grupos
como Hizballah e Hamas, como regiões de regulação e controle
deficientes quanto à atuação de células terroristas. O governo brasileiro
reconhece a existência de comunidades muçulmanas na tríplice
fronteira, mas nega que haja presença operacional de grupos extremistas
islâmicos na região (ESTADOS UNIDOS, 2006).
A reunião e a análise dos dados de Inteligência é a forma
menos visível, mas não menos importante de contraposição. A Inteligência
é vista, em países como os EUA, como a “primeira linha
de defesa” contra o terrorismo. Todavia, as informações mais específicas
são raras e de difícil obtenção. Estas requerem a infiltração
em grupos, que suspeitam de estranhos e não descuidam de
sua segurança operacional. A maior parte das informações obtidas,
portanto, é fragmentada, imprecisa e de credibilidade duvidosa.
Sua análise é, em conseqüência, um desafio similar à busca.
Nos ataques de 11 de setembro de 2001, apesar de os serviços de
Inteligência estadunidenses possuírem indícios, não havia pessoas
que pensassem de forma “doentia”, como Osama Bin Laden, a
fim de prever e evitar aqueles atentados (FRIEDMAN, 2005).
A função da Inteligência não é fornecer quadros abrangentes
sobre ações terroristas iminentes, mas um juízo estratégico sobre
as maiores ameaças, que regiões estão mais vulneráveis e que
tipos de alvos e táticas serão, provavelmente, utilizados. Estas informações
são utilizadas no assessoramento a decisões, sendo
essenciais ao funcionamento dos outros instrumentos de combate
(PILLAR, 2001).

Conclusão
A evolução do terrorismo neste início de século nos mostra
que as redes internacionais fundamentadas, principalmente, em
ideologias religiosas, estão substituindo os terroristas tradicionais,
cuja motivação principal é política. Os fundamentalistas islâmicos
têm sido os principais atores na realização de ataques. Como a
intolerância é patente nesses grupos, armas de destruição em
massa – químicas, biológicas e nucleares – tendem a ser utilizadas,
quando disponíveis, como forma assimétrica de combate ao
“Grande Satã” e a seus aliados. Ações suicidas e cibernéticas, da
mesma forma, se farão presentes. Para combatê-los, é preciso
pensar como eles, o que é tarefa hercúlea para os ocidentais.
Assim sendo, a fim de preservar vidas inocentes, todos os
Estados devem evitar ações que aumentem o sentimento de injustiça
no mundo e que fomentem o ódio entre os povos, pois este é
o principal “combustível” do terrorismo. O ódio deve ser combatido
preventivamente pelos governos envolvidos, de forma integrada e
coordenada, com atuação extensiva da Inteligência, da diplomacia
e de órgãos fiscais, evitando animosidades e difundindo uma
cultura de tolerância, pois, uma vez deflagrado o terror, extirpá-lo é
trabalho difícil e demorado.

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